Mamaço no Espaço nasceu da necessidade de dizermos à sociedade brasileira que podemos sim! Amamentar nossas crias em espaços públicos e de freqüentação publica. Que este lugar nos pertence e que este ato, tão natural e genuíno, não pode ser encarado de outra forma a não ser como um ato de amor em resposta à necessidade física e emocional do bebê. A sexualização onipresente do corpo feminino, nisso do seu seio, levou parte da sociedade a acreditar que oferecer o peito a um bebê entre outras pessoas é provocativo, inapropriado, desmoralizador. Usando-se da arte fotográfica decidimos fazer nossa contribuição para a mudança dessa mentalidade. Em agosto de 2015, convocamos as mães da capital a participarem de uma ação coletiva. A resposta ao nosso convite foi tão grande que seguimos fotografando-as durante semanas. O resultado desses encontros foi uma série de imagens e, o que é mais importante, a criação de uma rede de apoio, de empatia que nos cafés e parquinhos, na rede ou em mídia impressa e digital suscitava debates e discussões a respeito do direitos das mulheres, suas necessidades, dores e conquistas no processo de aleitamento e na maternidade.

Mamaço no Espaço mostrou-se uma arma potente e empoderadora que deu vida ao projeto Anytime Anywhere, que pretende levar a ideia do agir coletivamente com a arte pela liberdade das mulheres amamentarem em espaços públicos de diversos lugares do mundo. 

 
 
 

"Amamentar é uma tarefa de entrega inimaginável. Um conselho: peça ajuda sempre. Para poder descansar nos primeiros dias, para ajudar o bebê na pega correta, para abraçar bem forte se por ventura os seios "racharem". Se sentir vontade, chore. Caminhe entre o cansaço e a plenitude. Não se envergonhe, chore a dor de se transformar em uma mulher ainda mais forte e bela. Viva essa momento divino, você é agora parte da criação: gestar, cuidar e nutrir o corpo que veio de seu próprio corpo. Somos deusas." Agda Yokow

 
 

"As primeiras horas foram olho no olho, amor e ocitocina, rachaduras, sangue nos lábios, pomada de lanolina, motivação do pai, litros de água, posição invertida. Não demorou muito para que esse momento se tornasse a hora do nosso descanso, de quem põe quem para dormir, do relaxamento, da disposição, do nutrir. Houve o tempo da ordenha, do leite no copinho. Conseguimos amamentar exclusivamente até os seis meses. Agora é o momento da volta ao ciclo, da complementação, do até quando. Seguimos!" Cleide Vilela

 
 

"Amamentar não é fácil. É pura entrega e muito mais que alimento é amor. Precisamos mudar velhos conceitos e quebrar esses olhares desconfiados para mães que amamentam em público. Não há nada do que se envergonhar. Tem uma frase que eu gosto muito da ativista americana Paola Secor e precisamos reler sempre que preciso: “Mantenha-se forte. Amamente com orgulho. Você está fazendo o que é melhor para você e sua família. Toda vez que você compartilha uma foto de amamentação ou amamenta em público sem sentir vergonha, está ajudando outras mães. Elas podem não dizer, mas vêem você. As crianças vêem você. Adolescentes vêem você. Eles estão aprendendo com você o que é socialmente aceitável. Você é a mudança. Não deixe ninguém pôr você para baixo. Nossos filhos vêm em primeiro lugar”. Tatiana Sabadini

 
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"Mae de primeiro filho, aqui, fora da minha cidade (sou de Fortaleza), tremo um pouco antes de me preparar para dar de mamar assim no meio da gente de Brasília. Respiro fundo, abro a blusa e concentro nos olhos do Teo... Prevendo e temendo o dia que serei interrompida por conselhos para colocar uma fralda sobre o rosto do bebê/meu peito, ser mais discreta, usar avental etc." Teresa Maia

 
 

"Quando Bruna nasceu, uma amiga minha do trabalho tinha tido uma bebê 20 dias antes. Acontece que, por <<pressões do mercado>>, tivemos que voltar a trabalhar entre o 3o e 4o mês de amamentação. Foi um momento bem sofrido, pois não nos sentíamos prontas pra uma separação tão prolongada das crianças naquele momento. E também veio a aflição de não obriga-las a acessar outro tipo de alimento tão precocemente. Fomos aos poucos desenvolvendo uma parceria-irmandade profunda, eu e minha amiga. Deixávamos as crianças, com babás, o dia inteiro juntas no meu apartamento, que era mais perto do trabalho. Estocamos leite, mas em todos os intervalos corríamos pra ir em casa amamentar as pequenas. Quando somente uma de nós duas conseguia ir, amamentava as duas crianças, pois sabíamos que o toque do aconchego da mamada era tão importante quanto o leite em si. E não queríamos deixar nenhuma sem aquilo. O fim do expediente era sempre um drama. Ambas querendo correr pra amamentar, os peitos jorrando leite...mas vinham as <<reuniões de última hora>>. Foi então que passamos a nos revezar. Uma ficava na reunião e a que fosse pra casa amamentava as bebês. Lembro que íamos no banheiro, analisávamos qual peito estava mais cheio (o direito ou o esquerdo) e priorizávamos dar o mais cheio para a bebê que tivesse mamado menos durante o dia. Independente de qual filha fosse. Um dia levamos as meninas cada uma num pediatra e os médicos recriminaram totalmente a prática da <<amamentação trocada>>. Ligamos chorando pra nossas mães e ambas foram enfática: <<esqueçam os médicos, eles não sabem o que é ser mãe. Continuem o que estão fazendo. As crianças estão felizes>>. E assim fomos. Cada mãe amamentando as duas filhas até os 7 meses, quando finalmente elas mesmas passaram a querer mamar apenas na mãe biológica. E, nesse novo formato, as amamentamos até os 2 anos. Assim, Bruna e Gabriela cresceram como irmãs. E, mesmo morando atualmente em cidades diferentes, chamam a mim e minha amiga de <<mamãe>> até hoje." R.F.

 
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"<<Olha que bonitinho! Ela tem vergonha de amamentar na frente dos outros!>> - foi o que ouvi de um grande amigo assim que meu primeiro filho nasceu. Eu nem tinha parado para refletir sobre qual era a razão pela qual me reclusava no quarto pra amamentar meu filho todas as vezes que ele pedia peito - quer eu tivesse visitas, quer não. Mas, por alguma razão, aquela frase inocente proferida pela boca de alguém tão querido, ficou ecoando e ecoa na minha cabeça até hoje, mais de 5 anos depois.
Aquele foi o primeiro momento em que refleti que muitas mulheres sabem que amamentar é bom, mas ainda assim sentem vergonha ou preocupam-se demasiadamente em não incomodar os outros com aquela atitude.
<<Não custa cobrir com um paninho!>>, <<A mãe tem que entender que ninguém é obrigado a ver o peito dela>> ou, o pior de todos: <<tem mulher que aproveita a amamentação só pra se exibir e mostrar o peito!>> Além de serem comentários carregados de preconceito e até de julgamento, mostram o tanto que, na verdade, é a nossa sociedade que não está acostumada a aceitar com naturalidade um dos atos mais naturais, primitivos e amorosos de toda a nossa existência.
Amamentei meu primeiro até 2 anos e 3 meses e ainda amamento a segundinha, de 2 anos e 2 meses. Faço isso onde achar necessário. Onde achar que ELA precisa. E, se sentir olhares de julgamento ou mesmo me preocupar com o que os outros vão pensar (porque esse pensamento ainda me acomete), me desligo dos olhares externos e volto os olhos pra única pessoa que merece minha atenção naquele momento :)" Luiza Diener